
Acordado pela vizinha de cima, pancadas fortes na porta e gritos a dizer: “Abra, Abra por favor, houve um acidente”.
Saio da cama acompanhado da beleza e esplendor da minha roupa interior, abro a porta. Passam-me um telemóvel para a mão e pedem: “Fale com eles menino, você percebe” . Ainda a bocejar, a perguntar-me num centésimo de segundo, do que é que eu percebia alguém do outro lado da linha pergunta: “Você já está perto da vítima??“.
Por momentos ainda pensei responder, no meio de toda a estranheza de quem acaba de acordar, que não. Ainda não estava perto da vítima, não vi o holofote apontado no céu, não tinha nenhum cabine telefónica por perto para mudar de roupa. Respondi seriamente e calmo: “Não me encontro perto da vítima, mas já me encontro a caminho”. Enquanto pronuncio a palavra caminho, já me encontro no meio de escombros de uma obra em construção, com pedras afiadas a furarem-me os dedos, poeira e sol, muito sol, para elevar o meu nível de alerta.
Soterrado no meio de escombros, o Senhor José encontrava-se imobilizado, um corte profundo na zona do crânio… A voz do outro lado da linha pergunta-me: “O senhor já chegou?”
Respondo que sim, faço a descrição mais pormenorizada da minha vida, desde o estado da vítima até doenças pré-existentes e alergias.
A senhora do INEM, calma e competente, depois pergunta-me para meu espanto: -O Senhor é médico?
-Não! (ainda não)
- Pois bem que poderia ser, a ambulância já vai a caminho.

Depois de desligar, fico com o meu staff clínico de ocasião, 4 senhores a obedecerem-me cegamente. Se fosse do mercado negro de órgãos, eles a esta hora, não estavam tão contentes.
Retiro o cinto de ferramentas do Senhor José, grito para não lhe tocarem, nem mexerem em nada. Faço pressão na ferida, o Senhor José queixa-se, mantenho o senhor de 55 anos acordado, de preferência calmo e confiante, como convém.
Entretanto a ambulância chega, mal a enfermeira sai e começa a encaminhar-se, ainda distante grito e peço por um colar de imobilização cervical e o plano duro.
Não sei porquê, ela obedece-me e volta para a ambulância para o ir buscar.
Dou-lhe o espaço e a ajuda enquanto mantenho a pressão na ferida. Depois de colocado o colar cervical e o plano duro e à minha contagem, o meu 1, 2, 3, levantamos o senhor José. Ainda debaixo do meu comando (não me perguntem porquê), colocamos o senhor na ambulância e por decisão própria decido que é altura de das espaço, apesar de as portas da ambulância já se encontrarem fechadas e o só estarmos lá dentro eu, vítima, enfermeira e bombeiro.
Quando saio as mesmas pessoas que me olham de canto, vá-se lá saber porquê. Os vizinhos que nunca me dirigiram uma palavra, perguntam-me coisas, discutem, ficam espantadas. Isto tudo rodeado de mil vozes, cada uma com a sua teoria, cada uma com uma versão original e com direitos de autor sobre tudo aquilo que aconteceu.
Os ânimos exaltam-se porque a ambulância não parte e pela décima vez, garanto que estão à espera de estabilizar a vítima e do médico do INEM. Algo na explicação não os convence e reclamam, reclamam muito… No tempo deles era mais rápido, a ambulância já deveria ter saído. O governo era outro e no estrangeiro é que se está bem. Só faltava um coro de assobios e pedirem um livro de reclamações.
Se as ambulâncias o tivessem (livro de reclamações), enquanto se reanimava alguém ou se estabilizava um paciente, haveria sempre, mas sempre, um entendido a preencher uma queixa, a reclamar com alguma coisa.
No meio de tudo isto, ao fundo, já se viam capacetes de protecção nos senhores das obras, o capataz já fazia inúmeros telefonemas, quiçá na tentativa de, no mais curto espaço de tempo, legalizar a obra, colocar andaimes e esconder a mão de obra ilegal. Existem prioridades. O senhor José não era, o Senhor José por altura do almoço já se encontra perdido nas 4 garrafas de Cristal que bebem… Não custa nada.
-O Senhor é médico?
- Pois bem que poderia ser, a ambulância já vai a caminho.
vocação
do Lat. vocatione
s. f.,
acto de chamar;
inclinação ou propensão natural para um estado ou profissão;
predestinação;
escolha, talento.
Modéstia à parte, é claro!